Navegar Impreciso



Quarta-feira, Agosto 23, 2006
NOTA FÚNEBRE

E o Caixa d'Água, hein? Fechou a tampa. Fico pensando; se o Eurico era tão amigo do cara, quem sabe ele também não se anima? Perigava até a gente voltar a ter futebol por estas bandas.



Segunda-feira, Agosto 21, 2006
BANDEIRA

Não sou de sair por aí declarando voto, não faz meu estilo. Acho que todo mundo vem de fábrica com cérebro pra tomar suas próprias decisões sozinho, e não há de ser por ouvir - ou ler - minhas impressões, que alguém vá mudar de lado, e isso não só na política, como em religião, futebol, sexo ou qualquer outro campo de atividade humana. Cada um que cuide do seu cada qual, não sou eu quem vai querer ditar verdades a outrem. Mas tem horas que a gente deve se manifestar, não adianta. Seja por falta de assunto melhor, seja para tentar chamar a atenção para algo despercebido, ou atropelado mesmo, pelo (argh!) sistema.

Dito isto, vou direto ao assunto: meu voto pra presidente vai para Cristovam Buarque.

Cristovam não tem hardware de presidente, eu sei, mas gosto do software. Ele fala baixo e devagar, professoral, com aquela cara bonachona de tio de fim de semana. É quase triste, lembra um pouco o Dutra. Não tem aliados de peso, não tem uma campanha milionária. Mas o mote educação-educação-educação, que os tolos tendem a reduzir como samba de uma nota só, me encanta. Primeiro porque não há, nem houve nunca um candidato a presidente (Brizola chegou perto, mas era o Brizola) que tenha ousado levantar essa bandeira monotemática, por um simples motivo: educação não dá voto. Neguinho quer comida, emprego (não-sei-quantos milhões, lembram?), saúde, segurança, coisas mais imediatas. O cabra tem coragem, por aí já se vê.

Em segundo lugar, porque a educação é, sim, o caminho para resolver os problemas de uma nação, de qualquer nação. É trabalho árduo de longo prazo, coisa para vinte, trinta anos, mas que tem que começar de alguma forma. Investir maciçamente em educação é, sim, a única forma de promover a revolução social no país, dar acesso a um monte de lixo humano que (sobre)vive à margem de tudo. Saúde, violência, consciência cívica, favelização, mão-de-obra qualificada, meio ambiente, corrupção, reforma agrária, tudo isso passa por onde?

Distribuir renda, lamento informar, só com educação decente. Desenvolver ciência e tecnologia nacionais, idem. Senão é tudo só firula, bolsa-esmola ou turismo de astronauta em espaçonave alheia. E sem uma sociedade menos desigual, profissionais capacitados e a duplinha ciência & tecnologia, nenhum país cresce, inflação zero não serve pra nada. Engraçado que, no tempo da ditadura, a oposição dizia que não interessava aos generais dar educação ao povo porque povo informado não é manipulado. Os milicos foram embora, mas as agendas dos candidatos continuam as mesmas do Brasil Grande: crescimento econômico, controle da inflação, choque de gestão, blablablá. A quem interessa, agora, o povo permanecer desinformado?

E outra, não dá pra agüentar injustiça: isso que a imprensa faz, ao tentar rotular Cristovam Buarque como candidato sem plataforma, chega a ser covardia - para não dizer desonestidade. Cristovam é homem sério, foi reitor da UnB (que redemocratizou), governador do DF (com belas realizações e grande aprovação popular), Ministro da Educação de um Presidente que não dá a mínima para o assunto, desfaz de quem estuda para "ser alguém". Não podia dar certo mesmo, pulou fora como tantos outros, incluída aí a Heloisa Helena, nova queridinha da inteligentsia, agora em versão light, mais palatável. Só que à HH interessa é fazer barulho, vencer a cláusula de barreira e manter seu partido na ativa, nem que pra isso tenha que distribuir sorrisos, receber flores e maneirar nos impropérios. Cristovam não, ele é homem da Educação, está coerente com sua ideologia da vida inteira. Sabe que não vence, tem um por cento nas pesquisas e é provável que não saia disso. Mas a bandeira está aí, quem quiser que a siga. E é com essa que eu vou.



Quinta-feira, Agosto 10, 2006
EU, DESPORTISTA

Não sei se já contei aqui que meu forte nunca foi esporte (pois é, sou o próprio Tarzan, o filho do alfaiate), apesar de ter enganado meus pais durante um tempo com uma medalhinha aqui, outra ali, em natação e judô. Mas esportes coletivos não, definitivamente, não são pra mim. No futebol, esporte que, se você nasceu no Brasil e não pratica (mesmo que mediocremente) é considerado um E.T., sempre fui uma completa negação.

Na rua de certa época, no subúrbio carioca em que morava, só havia garotos (não contando a irmã do Deco, mas a irmã do Deco não dava mesmo pra contar como garota, deixa pra lá) e o futebol no cimento era esporte nacional - havaianas como balizas, quantos houvessem divididos em dois grupos. Muitas vezes fui convocado para completar número, enquanto os colegas mais distraídos não tinham ainda se dado conta de minha flagrante inaptidão. Depois não, preferiam mesmo jogar com um a menos, melhor não arriscar. Admirador incondicional do jogo bonito, o chamado futebol-arte, não poderia ter insistido na prática obtusa de jogadas bisonhas; desde cedo passei - no sentido figurado, claro - a bola, joguei a toalha. Enquanto meu irmão e os outros moleques esfolavam dedões e joelhos no cimento, eu sentava na sombra com um bom livro, ou uma revistinha de quadrinhos, e, no máximo, arriscava-me num palpite sobre uma ou outra jogada mais duvidosa. Uma espécie de comentarista, digamos.

Mas aí meu pai foi transferido de estado, e lá fomos nós morar em Cascavel, oeste do Paraná, cidade então recém-colonizada por gaúchos. Logo descobrimos, meu irmão e eu, a variante local do rude esporte bretão. No caso, a variante era ainda mais rude. O pátio da escola era de terra batida - vermelha, a "terra roxa" paranaense - coberta por aquelas pedrinhas bem miudinhas. No recreio, os cascavelenses arranjavam algo que se assemelhava a uma bola mastigada por, sei lá, um tigre-de-dentes-de-sabre, e davam-se à prática dum jogo inominado até então, mas que logo passamos a chamar entre nós, forasteiros, de "arrúpia".

O arrúpia, a princípio, era o jogo mais simples e sem graça de todos, pela ausência mais absoluta de regras que já se viu. Uns duzentos e cinqüenta piás de dez anos corriam em manada única envolta em poeira vermelha atrás da "bola", e ao que conseguisse chegar na semi-redonda cabia a honra de dar-lhe um bico pro alto, varejando a mesma à distância mais longínqua possível, ao mesmo tempo em que berrava, a plenos pulmões, "ARRRRRRRRRRÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚÚPIAAAAAAAA!!!", provocando imediatamente nova jogada, num vai-e-vem sem fim (Nota: teorias diversas foram levantadas nesses vinte e poucos anos de pesquisas lexicográficas acerca do tema, sendo mais aceita, até o momento, a de que "arrúpia" derivaria de "arrepia", após várias transposições que a língua de Camões e Machado sofreu, literalmente, até o dialeto gaúcho-paranaense ocidental). Não havia gols nem pontos; o objetivo único era fazer todo mundo correr ensandecidamente de um lado pro outro - portanto, quanto mais longe fosse a bola, melhor. A modalidade era praticada em tempo único de meia hora, ou seja, 100% do recreio. Os duzentos e cinqüenta (ou cento e vinte, ou quatorze, isso não tinha a menor importância) terminavam a peleja suadíssimos, com as bochechas coradas e algumas escoriações, uniformes em frangalhos entranhados de pó escarlate, tênis imprestáveis. Mas felizes, absurdamente felizes, prontos para outra ultracarga de calorias.

Dada a simplicidade do jogo e a desnecessidade total de habilidade, até mesmo eu me aventurei algumas vezes no meio da massa encardida. Claro, em nenhuma delas cheguei a bradar sequer um arrúpia, mas só o fato de estar ali, mais um na multidão enfurecida, me bastava. Aquilo é pra mim, até hoje, o esporte mais democrático que pode haver: nada de garotinhos metidos a craque escolhendo times com aquela empáfia sem tamanho, deixando gordos, cdf's e quatro-olhos para o final. Nada de juízes, treinadores, platéia, equipamentos. Nada de uniformes, regras nem fair-play. Nem mesmo competição; o arrúpia era (é?) o futebol em seu estágio mais avançado, a volta às origens: uma horda de bárbaros chutando caveiras adversárias indiscriminadamente. Só a pura diversão camarada, gastar energia e, acima de tudo, rir-se de si e dos outros.



Quinta-feira, Julho 27, 2006
DOIS EM UM

Isso de ser pai só de menina é lindo, torna você um cara muito mais sensível e coisa e tal, mas tem hora que o nível da testosterona bate lá no fundo. É uma profusão de bonequinhas, e figurinhas, e panelinhas, e mais um monte de inhos e inhas, tudo em infinitos tons de rosas e lilases. Com brilhinho. E aí chega uma hora em que um sujeito macho, por mais feminino que seja, não agüenta: há que se repor os níveis hormonais.

Para tanto, posta-se o sujeito macho defronte ao aparelho televisor, envergando, já que é dia de decisão de campeonato, a camisa de seu time de futebol (o popular Manto Sagrado), latinha de cerveja à mão, controle remoto à outra (só pra dar aquela falsa sensação de controle absoluto da situação), ensaiando todos os palavrões reprimidos. Sentindo-se mesmo o último dos hunos. Quase arrota e cospe pro lado, mas foi dia de faxina e o chão está limpo, e ele não pretende arrumar encrenca com o inimigo, não enquanto as atenções têm de estar voltadas somente para a peleja na TV.

E não é que, sub-repticiamente, abrem-se as cortinas, começa o espetáculo e quem vem correndo serelepe sentar-se ao lado do pai huno é a menininha princesinha bailarininha cor de rosinha? Só que vestida para a guerra: mini-camisa do time (saia combinando, que ninguém é de ferro), bandeira na mão, desenho-vudu com placar de goleada a nosso favor, pulseiras e apetrechos variados nas cores da Nação. E xinga o juiz, vaia jogadores rivais, quer matar os torcedores adversários um a um com seus superpoderes, grita gooooollll acordando até os jacarés vizinhos e manda um "ôôô, vice de novo..." melhor que muito marmanjo, a menina huno (ou huna, sei lá se existe isso).

E aí, ao huno reabastecido, resta somente se perguntar pra quê um moleque ranheta, com esse furacão tão bonitinho dentro de casa.



Terça-feira, Julho 18, 2006
VAMOS COMBINAR

Tenho medo - medo não, pavor - desses neologismos de prateleira a que somos submetidos a torto e a direito. Sim, eu lanço mão da pré-cambriana "a torto e a direito", mas não por isso me assustam as novidades da língua. Quando a coisa brota naturalmente, de uma necessidade comum, das pessoas comuns, de definir algo inédito, tudo bem. É normal e sadio que se incluam palavras ao dicionário, línguas (as de falar, não as de lamber) são mesmo como organismos vivos, vibrantes, e admitem até influências estrangeiras, normal.

Mas, quando uma expressão de repente toma conta de todos os meios (a chamada mídia, vá lá), imposta por meia dúzia de publicitários sabichões e todo mundo sai repetindo maquinalmente pra fazer bonito, irrita. A mim me irrita. E quando chega essa época de eleições, então, a coisa potencializa; daqui a pouquinho vamos ter milhares de beócios candidatos a uma vida mansa cuspindo na TV e no rádio, dia e noite, asneiras decoradas como se tivessem descoberto a pólvora (olha outra pré-cambriana).

Já prevendo irritações sem fim, especialmente as causadas por certa expressão ainda recente mas já bem na moda, que ameaça pegar firme, proponho o lançamento de uma campanha urgente: BASTA DE INCLUSÃO DIGITAL! Vamos bolar um grande concurso nacional, debater nas universidades, promover votações em todos os cantos, mas bora mudar isso aí, não tá dando!

Ou, como diria Ancelmo Gois: na minha terra, inclusão digital é eufemismo pra dedada. Com todo o respeito.



Segunda-feira, Julho 17, 2006
SANHAÇOS

Humanos somos muito esquisitos mesmo; a gente inventa um monte de coisas pra complicar a vida, depois reclama que a vida é complicada. Certo, nenhuma novidade, mas é que nem falo só de aparato tecnológico, guerras, buracos na camada de ozônio. Falo mesmo das relações pessoais, aquelas que se dão no dia-a-dia entre dois exemplares dessa espécie complicada dotada de umbigos-reis.

Dos toques mais bacanas que o moço do Corcovado deixou - ou dizem que deixou, sei lá, mas está registrado em seu nome - meu preferido sempre foi "olhai as aves do céu, olhai os lírios do campo", e por aí vai. "Nada mais natural que a natureza", completaria minha avó, eu assinando embaixo. Tenho feito bem pouco na vida além de procurar olhar as aves do céu e os lírios do campo. Rezo para ter olhos de ver, ouvidos de ouvir.

Há um ninho de sanhaços aqui fora, na caixa de ar condicionado empoeirada desse prédio empoeirado, nesse bairro decadente e empoeirado. Poucas árvores ali embaixo, algumas até bastante habitáveis, ao menos pro meu gosto. Mas eles cismaram de fazer ninho aqui, seja porque as árvores habitáveis já estejam bastante habitadas, seja porque prefiram um pouco mais de altura e sol. Estão aqui do lado, preparando sanhaços pro mundo, pais orgulhosos e atarefadíssimos de três filhotes famintos e esganiçados. Vez em quando cantam, não sei se por júbilo ou ensinamento aos pequenos, sanhaços não são minha especialidade. Vão e voltam com comida, enfiam goelas dos filhos abaixo, cantam. Simples assim. Daqui a pouco serão mais três sanhaços voando por aí, prosseguindo a programação. Os pais já terão feito outros ninhos e outros filhotes (com outros parceiros, talvez; preciso lembrar de pesquisar sanhaços). Sem roupa, psicanálise, televisão, supermercados, taxas de juros, eleições, gordura localizada, discussão de relacionamento, sites de relacionamento, blogs. Sem futebol! Sem noção da maioria das coisas, é verdade, mas não mais do que muitos de nós.

Faz sol e há sanhaços pra se ver. A Lua tem estado esses dias mais próxima à Terra (os que complicam chamam de "perigeo"), você viu? Ali embaixo passam as pessoas empoeiradas; ninguém olha o Sol, ninguém olha os pássaros do céu. Passam com pressa, com tosse, com raiva, de óculos e espíritos escuros, enquanto la nave va, azul como sempre, sabe-se lá pra onde. Custa nada aproveitar a viagem.



Quinta-feira, Julho 06, 2006
1,2,3...

E então eu resolvo arriscar. Será que ainda anda, esse troço? Pelo tempo já enferrujou tudo, e o óleo Singer que eu comprei outro dia, quede? Ai, e desenferrujando, será que ainda vem alguém aí pra espiar? Tava lá tão bem no meu cantinho inerte, sem essas procupações metafísicas, sem responsabilidade de pensamentos originais brilhantes, que que eu fui inventar agora? Bom, é só um teste sem compromisso, tá pessoal? Pessoal? Pessoal-ô???



Quarta-feira, Março 08, 2006
O HOMEM 2.0

E porque no princípio era o Verbo, e o Verbo sozinho não tem graça nenhuma, Ele inventou o Sujeito. Mas o Sujeito era um camarada meio sem predicados, resmungão e mal-agradecido, e que, apesar de ter aquele Paraíso novinho em folha todo ao seu dispor, vivia se queixando da vida, da solidão e da falta do que fazer, já que, àquela altura, Ele ainda não tinha inventado o trabalho, nem o sexo, nem a pelada com os amigos. Aliás, nem os amigos.

Então o Sujeito passou a reivindicar uma forma qualquer de entretenimento, qualquer coisinha que o mantivesse ocupado e blablablá, e apoquentou tanto a paciência Dele, criador jovem mas de muito talento, chegado a um desafio, que Ele finalmente reuniu Sua equipe de projetistas, chamou a imprensa para uma entrevista coletiva e anunciou que viria aí Seu projeto definitivo, aquele que O consagraria de vez:

- Como vai ser isso agora, outro mundo, com novos seres?
- Não, por enquanto ainda estou focado nesta minha última experiência, o VL-3. A idéia é aperfeiçoar a criação, dotando-a de autonomia reprodutiva, mais harmonia estética e certa dose de conflito, pra dar um molho.
- Vem aí outra mudança radical nos habitantes do planetinha azul, então? Porque depois daquele fiasco com os dinossauros...
- Só no protótipo do modelo Homem, que apesar de ser o meu top de linha, anda apresentando algumas falhas, sobretudo as de caráter. Sabem como é, aprontei tudo em uma semana, de virada, e não deu pra estudar direito certos componentes. Mas dei uma escapada pra Angra no Sábado e agora, com a cabeça mais relaxada, estou aí com umas idéias que vão revolucionar.
- O Homem deixa então de existir?
- Não, por enquanto quero insistir no projeto. O que vou lançar é uma versão mais atual, com tudo de mais moderno, e dessa vez com um desenho espetacular, vocês vão ver. O Homem 2.0 será Minha obra-prima, o ápice da Minha criação! Virá de fábrica com capacidade de gerar novos protótipos, alimentá-los e passar-lhes adiante aquilo que é o meu xodó, o Programa Genético. Para dar alguma utilidade à versão anterior, decidi que a reprodução será realizada sempre em par, composto por um exemplar de cada modelo.
- Mas dessa forma o planeta será amplamente povoado, não teme que a situação fuja ao Seu controle?
- Por ora não, é cedo para pensar nisso. Mas tenho minhas armas secretas para recomeçar, em caso de pane. Por exemplo, dotei o VL-3 de uma rede de sprinklers bastante eficiente, que entra em ação automaticamente numa emergência, varrendo tudo com um dilúvio devastador. Mas vamos ver onde isso vai dar.

Então, após inúmeros estudos, milhares de aperfeiçoamentos e testes, Ele finalmente apresentou o Homem 2.0 ao Sujeito, que, claro, arranjou uma falha:

- Pombas, que falta de criatividade, tô até Vos estranhando! "Homem 2.0"??? Por que não arrumais outro nome melhor pra gente não ficar sendo confundido o tempo todo? Sei lá, vamos dizer...por exemplo, "Mulher"?
- Tá bom, tá bom, tá bom! Caramba, como tu é chato, vê lá se não vai me estragar meu protótipo novinho, hein? Ele ainda está em fase de testes. Cuidado pra não arranhar a pintura, que é muito mais sensível que a tua!
- Deixai comigo, chefia, vou direto pro test-drive!

Bem, o restante é mais ou menos sabido, o Homem 2.0, ou melhor, a Mulher, foi um sucesso absoluto e finalmente consagrou o talento Dele, que enriqueceu e passou a só trabalhar por hobby, pintando vez em quando um pôr-do-sol ou outro, fazendo locuções em filmes do Charlton Heston ou moldando aqui e ali um geniozinho do futebol ou da música, Suas atividades humanas preferidas. O modelo definitivo mostrou-se tão superior que botou o Sujeito primitivo para trabalhar ao seu sustento, e ao de sua prole, permanecendo, de uma forma ou de outra, sempre no controle da situação. Eles cresceram, multiplicaram-se e dominaram a Criação pelos séculos e séculos, Amém.

Mas vamos ver onde isso vai dar.



Quinta-feira, Março 02, 2006
ENTENDENDO NADA

Peraí, a Vila ganhar Carnaval sem Martinho, e ainda cantando "Soy Loco Por Ti, America"? Mas a novela não acabou? O Gil já não foi enredo da Mangueira? E a Bolívar, minha gente, não fica é em Copacabana?

Nöel Rosa, rápido:

Palpite Infeliz

Quem é você que não sabe o que diz?
Meu Deus do Céu, que palpite infeliz!
Salve Estácio, Salgueiro, Mangueira,
Oswaldo Cruz e Matriz
Que sempre souberam muito bem
Que a Vila não quer abafar ninguém,
Só quer mostrar que faz samba também

Fazer poema lá na Vila é um brinquedo
Ao som do samba dança até o arvoredo
Eu já chamei você pra ver
Você não viu porque não quis
Quem é você que não sabe o que diz?

A Vila é uma cidade independente
Que tira samba mas não quer tirar patente
Pra que ligar a quem não sabe
Aonde tem o seu nariz?
Quem é você que não sabe o que diz?



JÁ GANHOU

A melhor cena do Carnaval carioca, pra mim, foi protagonizada por um paulista: o Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, com aquele clássico penteado empresta-um-pouco-pra-cá e a indefectível calça Saint-Tropeito, puxando trenzinho de mulatas daquelas que-não-estão-no-mapa.

Depois do até então invencível picolé de chuchu, Alckmin se superou e abre agora ampla vantagem sobre os demais concorrentes ao troféu Charge Pronta, um oferecimento deste veículo. Pode-se dizer tudo dele - sem-sal, caretão e neoliberal globalizante - mas que ele tem muito mais pegada que o chato do Serra, tem.



ESPECIAL: PERSONALIDADES NO BOITATÁ


Osório assiste, muito a cavaleiro, às renhidas batalhas de confete e serpentina


Anjinha Taisa, do jeito que o Diabo gosta


Luise Fadinha, plim-plim!


Nêga Joana e Padre Marcinho


Meio-de-campo rubro-negro: Arlindo, Nininho e Mussum


Bruxinha Flavia e - como definir? - a Tchutchuca Imperiana Marcelo


Fipo, Léo e os chapéus complementares - isso dá uma tese


Papo de Anjos


Ângela "Hula-Hula" Gimenez


Não me leve a mal, hoje é Carnaval


Depois do beijo diabólico, a Anjinha foi correndo tomar uns passes, digo, a bênção do Pai, êpa, Padre Marcinho


Mas não adianta, esses padres de hoje em dia são mesmo todos uns tarados!



Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
REQUENTANDO OS TAMBORINS (DOIS MINUTOS, FOGO MÉDIO, BANHO MARIA)

Carnaval taí de novo, e neste ano vem ao mundo o Pereba no Suvaco, bloco fundado em mesa de boteco, claro, e tendo como muso e patrono ninguém menos que ele, o jornalista, escritor, crítico literário e de cinema, candidato a candidato a imortal da Academia, imperiano de fé e - fazer o quê, todo mundo tem mesmo um lado meio obscuro na vida - tricolor Marcelo Moutinho , o grande Eme-Eme.

Como ninguém samba nada mas todo mundo bebe muito, nosso primeiro enredo - um rápido panorama sobre a importância fundamental da axila na história dos povos através da análise morfológica da estatuária ao longo das eras - será contado em forma de marcha-enredo, gênero musical modestamente desenvolvido pela minha pessoa e que, ademais, é muitíssimo mais fácil de compor. Claro que, como não poderia deixar de ser, a expressão "na Grécia" se faz mais uma vez presente, como ítem imprescendível das composições musicais voltadas à folia momesca, tradição imorredoura do mesmo naipe dos igualmente clássicos "ôô", "aquarela", "esplendor" e "cenário multicor". Mas chega de conversa fiada, bora decorar pra gente não fazer feio!

Pereba no Suvaco saúda o distinto público, a imprensa escrita, falada e televisada e pede passagem e ticket-refeição

Olha o Pereba no Suvaco, o meu cordão
Que vem chegando e de primeira já desfila
Copos ao ar, pra refrescar a suvaqueira
E pra lançar o Axioma da Axila

Outros suvacos terão muito mais glamour
Depiladinhos e agradáveis ao nariz
Mas aparência é questão de superfície
Quem tem pereba no suvaco é de raiz

Se é o roll-on que é bom, ou se é o spray, não sei
Desodorante, francamente, eu nunca usei (Bis)

Na Grécia, a Vênus de Milo
Ficou cotó mas os suvacos, que beleza!
Se afrodisíaca é a inhaca no carrara
Vai só pensando o que é na natureza!

Miss Liberdade ostenta o seu, orgulhosa
E a toda hora derruba mais um
Aquela tocha é meramente um disfarce
O que ela espalha para o mundo é o bodum

Se o Redentor já tem quem cante o Seu suvaco
(O da direita, arejado pelo mar)
A gente fica com o canhoto, que é pereba
Mas dá pra Vila, pro Maraca e Paquetá

Se é o roll-on que é bom, ou se é o spray, não sei
Desodorante, francamente, eu nunca usei (Bis)



Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
EVOÉ, MAOMÉ!

Diante dessa guerra surreal entre vikings e mouros, só o que há para dizer é: viva o Brasil! Ufanismos lá longe, e mesmo com todas as mazelas e mutretas que cada um de nós está valério de saber, esse tipo de coisa maluca nunca aconteceria por estas bandas luso-tupiniquins. Não só pelo famoso deixa-estar-pra-ver-como-é-que-fica com que empurramos tudo com a barriga, mas porque esta é mesmo a terra da acolhida, da convivência pacífica até mesmo entre povos "inimigos".

Não é à toa que quando a gente brinca com religião, quase tudo acaba em samba - ou em marcha. Pra ficar só nas mais famosas, ambas cutucando o vespeiro do Islã: "Allah-lá-ô" (Haroldo Lobo e Nássara, 1940) e "Cabeleira do Zezé" (João Roberto Kelly e Roberto Faissal, 1963). A "Cabeleira" é aquela mesma, famosa por cogitar ser o cabeludo Zezé um possível seguidor de Maomé ou, pior, um transviado. "Allah-lá-ô" (ou "Alá-lá-ô", ou "Alalaô") já no título cita o nome do próprio Deus em vão! E isso há 65 anos! Serão os nossos muçulmanos mais relaxados que os muçulmanos dos outros, ou cientes de que não vale a pena esquentar a cabeça com galhofa de brasileiro, ainda mais em se tratando de assunto grave, de importância nacional, como uma marchinha carnavalesca?

O fato é que "Allah-lá-ô" teve outros motivos, que não religiosos, para causar polêmica. Conta a lenda que o compositor Haroldo Lobo teria composto a marcha "Caravana" para o cordão Bloco da Bicharada desfilar no bairro carioca da Gávea, no Carnaval de 1940:

"Chegou, chegou a nossa caravana / Viemos do deserto / Sem pão e sem banana pra comer / O sol estava de amargar / Queimava a nossa cara / Fazia a gente suar."

Haroldo usava testar suas composições no bloco, do qual era patrono, para lançá-las no ano seguinte. Meses depois, já pensando no repertório do próximo Carnaval, pediu a Antonio Gabriel Nássara (caricaturista, a história vive mesmo a repetir-se) que completasse a letra. Nássara, que era filho de imigrantes libaneses, gostou da idéia mas achou os versos muito ruins, então sugeriu uma segunda parte:

"Viemos do Egito / E muitas vezes nós tivemos que rezar / Allah, Allah, Allah, meu bom Allah / Mande água pra Ioiô / Mande água pra Iaiá / Allah, meu bom Allah."

Segundo depoimento gravado de Nássara, quando Haroldo percebeu a força da palavra "Allah" repetida várias vezes, entusiasmou-se: "Mas que palavra você me arranjou, rapaz!". Na mesma hora, teria criado o refrão "Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô / Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô", o forte da letra. Graças à ajuda do maestro Pixinguinha, que priorizou o arranjo da composição (ainda, de quebra, a incrementando com uns enxertos seus), a gravação, com a voz de Carlos Galhardo, pôde ser feita a tempo de ser lançada no Carnaval de 1941, com estrepitoso sucesso.

Em 1980, num artigo na revista Manchete, David Nasser (outro filho de libaneses, vejam como são as coisas) declarou-se co-autor da letra de "Caravana", preterido por Haroldo Lobo. Mas reconheceu, afinal, que o sucesso da marchinha devia-se ao trabalho definitivo da dupla que a registrou. Não se pode saber se a versão de Nasser é a verdade, esperteza de marketing pessoal ou puro veneno: a despeito do grande compositor e jornalista que foi, sempre viveu lances controvertidos, como a perseguição covarde que fez a Carmen Miranda nas páginas de "O Cruzeiro". Prefiro ficar com a versão de Nássara.

Esperemos que os ânimos se esfriem e que os árabes não se lembrem de cismar com essa marchinha brasuca imortal. Até porque se a guerra for declarada em pleno Domingo de Carnaval, vai faltar confete pras batalhas. Mas isso já é outra música.

Allah-lá-ô (Haroldo Lobo e Nássara)

Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô (bis)

Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente e queimou a nossa cara

Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô (bis)

Viemos do Egito
E muitas vezes nós tivemos que rezar
Allah, Allah, Allah, meu bom Allah!
Mande água pra Ioiô
Mande água pra Iaiá
Allah, meu bom Allah!



Quarta-feira, Janeiro 25, 2006
O TOM DO RIO



Hoje também devia ser feriado aqui no Rio. Não pelo santo do dia, São Paulo, padroeiro da vila de mesmo nome fundada por jesuítas nesse mesmo dia no planalto de Piratininga, mas pelo aniversário de nascimento do nosso refundador, se é que isso pode ser dito assim.

Depois de Estácio, que morreu flechado como o santo que lhe apareceu em meio à batalha, e portanto não viveu sequer para ver sua São Sebastião desabrochar, quem refundou esta cidade, que não é só um pedaço de chão bonitinho mas a própria maneira de ser e de viver que - sorry, periferia - ainda define e caracteriza o ser brasileiro, foi Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o nosso Tom.

O Rio de Tom troca a noite dos cassinos e inferninhos, dos boleros e sambas-canção, das femmes fatales e amantes suicidas pelo dia de sol e mar, vento de maresia, moças douradas e sorridentes. É mais bonito, é mais luminoso, usa roupas folgadas e chinelos de dedo. Acrescenta uma bossa nova à velha bossa da cidade, e por isso, é muitíssimo mais carioca.

Com o Maestro, não muda só a música brasileira, mudamos todos nós, cariocas de ofício e devoção. Viva, Tom!



Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
FELIZ ANO NOVO



É a gente começar o ano na santa paz das Geraes e aí mesmo que o velho ritmo desanda, ainda no café-com-pão da eterna Maria Fumaça, a rasgar com seus apitos o silêncio de passarinhos e comadres. Ê leseira danada, perdição. Certo que isso é restinho do barato inebriante do pequi, gosto rosa de Guimarães. Ou é muita cachaça e feijão-de-tropeiro nas idéias, efeito devastador na ordenação racional de palavras. Aliás, escrever mó de quê, uai, se a gente pode prosear?

Ou o ar puro demais das montanhas, ou a sabiá em frenéticos vaivéns aos três biquinhos ávidos, ou o desbunde do concerto barroco na Matriz seguido da Folia de Reis na praça, genialidades tão díspares e gêmeas assim, direto na veia. Ou o boquiabrir-me diante das maravilhas que mãos grossas, calejadas, produzem do lixo, um "fiat lux" ao vivo e em cores, muitas cores. O tatu que brota do galho de maçaranduba como o Moisés de Michelângelo brotou um dia do Carrara.

Ou é a água, claro!, a água de São José, cuspida há trezentos anos das mesmas três gárgulas de pedra, água de sinhazinhas e escravas lavadeiras, de tropeiros e inconfidentes, corcéis e mulas.

Ou o vagar com que se come o pastel de fubá, como quem adivinha a última refeição na terra, ou a primeira no Céu, vai-se saber.

Os santos e santas morenas, querubins caboclos, cristos brasílicos. O ouro fácil, ostensivo, dos brancos, o ouro suado e escondido em carapinhas e bocas negras, valorado ainda mais pela raridade do impossível.

Ou é mesmo a paz de sorrisos e boas-tardes, de meneios e acenos tão desconhecidos quanto acolhedores. Vontade de fazer parte daquilo tudo, daquele sistema redondo, perfeito.

É a gente ir ali distraído e voltar assim, com muito por (re)pensar, tudo por fazer.

(a foto, que é minha, foi clicada por volta da hora do almoço de um dia mormacento no Distrito de Vitoriano Veloso, que é conhecido mesmo, universalmente, pelo muitíssimo mais apropriado nome de Bichinho.)



Terça-feira, Dezembro 20, 2005
SÓ ELA



Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem

Procurando bem
Todo mundo tem...

(Ciranda da Bailarina - Edu Lobo e Chico Buarque)



Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
MATILHA DE DIRCEU

José Dirceu foi jogado aos cães, isto é fato, e não só pelos "companheiros", mas pelo próprio Lula. Escaldado, Sua Incelença dispensou um dedo para salvar a mão, mas desconfio de que dessa vez tenha perdido um braço inteiro, ou os dois. Há quem veja a ex-eminência parda do Planalto como mártir, ou mesmo como simples bode expiatório. Pra mim, ele simplesmente colheu o que plantou, esse foi o resultado previsível a tanta empáfia e arrogância. Basta lembrar o episódio do chá-de-cadeira que ele ofereceu ao Gabeira, o cara que ajudou a seqüestrar o embaixador americano para livrá-lo da tortura. Ademais, o esquemão todo da matilha que adestrou foi desmascarado pelo isolamento que ele próprio infligiu-se, a partir do momento que julgou-se superior à ralé parlamentar que o sustentava, imaginando-se, talvez, ungido pelos mesmos princípios de inquestionabilidade de um Lênin, um Stálin, um Fidel, livre para cometer o que fosse que justificasse a "causa". Faltou manha, sem dúvida: marreco novo não nada em lagoa funda, diz o vulgo. E malandro demais se atrapalha.

Engraçado que tivemos recentemente o caso do Collor, presidente que, em resumo, caiu pela auto-suficiência quase tão grande quanto seu ego. Talvez o Zé não tenha atentado à lição: é básico que, em política, ninguém gosta - sequer admite - quem não precise dos outros. A interdependência e a manutenção das relações cordiais entre Poderes - ou, se é que você prefere uma expressão mais direta, o toma-lá-dá-cá - são essenciais para o bom andamento das coisas neste país presidencialista de Constituição parlamentarista. Nesse ponto FHC foi mestre; apagou todo palito e isqueiro acendidos contra seu palheiro, antes mesmo da primeira fumacinha.

Morre aqui, poucos estão se dando conta, o projeto do partido da estrelinha de permanecer vinte anos no poder, já que o PT dava como favas contadas a reeleição do Lula e o sucesso da virtual candidatura de Dirceu em 2010, eleição que ele não vai mais poder disputar com essa inelegibilidade de oito anos. Caiu o ex-quase-futuro-Presidente da República, o que não é pouca coisa. Caiu o capitão, o maestro, o homem por trás do pano, o Dr. Frankenstein. Resta saber como ficará a Criatura sozinha em meio à matilha faminta.



Sexta-feira, Novembro 25, 2005
O BRASIL É UM SERESTEIRO

Só ontem conseguimos ver na Laura Alvim "A Canção Brasileira", que eu já namorava há tempos, antes mesmo da estréia no Espaço Cultural dos Correios. Quando soube que Paulo Betti, com sua Casa da Gávea, estava produzindo esse espetáculo, marquei logo nos "imperdíveis". Imperdível porque é uma opereta - gênero raríssimo nos dias de hoje - com libreto de Luis Iglesias (o rei do teatro de revista) e Miguel Santos, com partitura do maestro Henrique Vogeler, originariamente encenada no Teatro Recreio, então o grande palco dos musicais cariocas. Imperdível porque resgata as origens da nossa música; imperdível porque é um belo texto, recheado de belas músicas.

A idéia de remontar essa raridade era de Luís Antônio Martinez Corrêa, diretor dos sucessos "Theatro Musical Brazileiro I" e "II", que vinha trabalhando no projeto quando foi assassinado, em 1987. Sua irmã Maria Helena, decidida a tocar a empreitada adiante, esbarrou num primeiro empecilho: embora se conhecesse o libreto, não havia registro da música. Como teatro é mesmo feito de magia, ela um dia recebeu a visita do Sr. French Gomes da Costa, antigo freqüentador do Recreio que, de tanto assistir à montagem original em 1933, acabou conseguindo uma cópia da partitura, relíquia que conservou por décadas, como que por missão. Maria Helena fez adaptações no texto e convidou Betti para dirigir a peça, que conta com um jovem mas muito talentoso elenco de atores-cantores-músicos, cenários e figurinos eficientes e lindas coreografias.

Mas o grande trunfo é mesmo o argumento, um achado do cracaço Iglesias (falecido marido da atriz Eva Todor, vo-cê...sabia?): a Canção Brasileira, menina rica recém-nascida do casamento feliz do Sr. Lundu com a Sra. Modinha, recebe a visita dos amigos chiques do casal, como a Valsa vienense, o Couplet francês e o Fado português. Mas alguns velhos amigos do pai da menina, a Flauta, o Violão e o Cavaquinho, descem do morro para também homenageá-la, e acabam tendo a idéia, "pelo bem da música brasileira", de raptar a Canção Brasileira dos salões, levando-a ao morro para crescer junto a um moleque também recém-nascido, o Samba.

Os anos passam e os dois acabam mesmo enamorados, e estão prestes a marcar casamento quando a mãe da moça, agora já viúva do Lundu, descobre com a ajuda de um amigo afetado, o Tango, a filha raptada vivendo na pobreza. Desiludida com a mentira de tanto tempo, a Canção acaba por ceder aos apelos da mãe e desce à cidade, deixando o noivo desconsolado. A Canção sucumbe aos apelos da vaidade e aceita a corte do Tango, para gosto da Modinha, enquanto o Samba se diverte com a Senhorita Charleston, menina americana doidinha que, depois descobrimos, é ex-caso do porteño, dos tempos dos cabarés de Paris.

É claro que a coisa tem um final feliz: no dia do casamento da amada o Samba chega engalanado, com os velhos amigos do morro, cantando o tema da moça (que começa com a frase do título ali em cima). Ela, derretida, dá um "adiós muchacho" ao janota argentino, que sai batendo a poeira dos sapatos, à la Carlota Joaquina. Miss Charleston, encantada com o Moleque Tamborim, o arrasta pra fazer ponta na jazz band de seu pai, Mr. Fox, na América. E o Samba e a Canção terminam juntos e apaixonados, prometendo um futuro muito fértil. Para o bem da Música Brasileira.

Eu disse que era imperdível, corre que só vai até 11 de dezembro!

A CANÇÃO BRASILEIRA
Quintas e sextas às 21hs; Sábados e Domingos às 20hs.
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim - Av. Vieira Souto 176, Ipanema
Tels. 2267.1647 / 2247.6946




Quarta-feira, Novembro 16, 2005
FAMÍLIA ADAM SMITH

Acho um exagero isso de cogitarem ressuscitar o Delfim. Esculhambação por esculhambação, melhor desenterrar logo o Malan, que é presunto mais fresco e pai verdadeiro desse filhote de cruz-credo que chamam por aí de política econômica.



Segunda-feira, Novembro 07, 2005
SOUTH AMERICAN WAY

O restaurante é tradicional, serve peixe e aparentados numa orgia sem fim, preço fixo. Caro. Bastante freqüentado por turistas estrangeiros, pelo exotismo do lugar, um perto-longe da zona sul (você tem de pegar uma estrada, onde passa por vendedores de caranguejo, roletes de cana e sapotí, entre outros, o que dá a sensação de estar viajando pra fora da cidade). Igualmente apreciado por nativos, principalmente os de carteiras anabolizadas, mas até por reles mortais como eu, que têm o cérebro no lugar do estômago (ou vice-versa, o que, pensando bem, explicaria o vício inato por camarões) que trocam os últimos centavos pelos prazeres de uma boa mesa.

Estou de costas, mas percebo que o grupo é formado por membros de três gerações de uma mesma família, capitaneado pela mãe, uma dona que fala sem parar e com aquele carioquês molenga de certa classe, que faz a pessoa aparentar embriaguez permanente. A avó é senhora mais simples, não tendo, talvez, acompanhado a evolução social da filha. O filho, moleque de uns dez, onze anos, é dessas crianças irritantes que se acham mais inteligentes que todos, impondo inúmeros xeques-mates em voz alta aos demais comensais. Conhece tudo, já deve ter estado nuns vinte países. Rico e tolo, alienado. Falam de tudo, quase sempre frivolidades. As mulheres, fico sabendo, têm que voltar ao médico da dieta urgentemente, o remédio não está funcionando (se for inbidor de apetite, penso eu, não está mesmo). Ainda descubro que o hotel da última viagem a Cancún possui uma varanda similar ao do nosso restaurante, só que maior e sem esse telhado de palha, né?, onde os pássaros também entram atrás de comida. Não são pardais, claro. A dona bêbada chama a garçonete e pergunta em voz alta pela proprietária do estabelecimento, recentemente acometida por derrame, fazendo questão de aparentar intimidade, "ah, conheço isso aqui desde o tempo do prato feito". A derradeira prova: eles também pedem quentinhas pra viagem, não estou só. A filha não aceita a mãe simplória preferir mandar embrulhar o peixe, mais barato que o resto. Não há dúvidas, o grupo é uma amostra (bastante significativa, uma vez que representa bem as três fases de evolução da espécie) daquilo que se convencionou chamar "emergentes": muita grana e pouca cultura. Bastante afetação.

Vem a sobremesa, composta de uma bandeja com uma infinidade de potinhos contendo os mais variados doces da terra, das compotas à baba-de-moça. "Isso é brownie?", pergunta o garoto. Silêncio, a garçonete não tem resposta. "É pé-de-moleque, João Marcelo. Tipo um brownie, prova que você vai gostar".



Sexta-feira, Novembro 04, 2005
SÉRIE MAIS OU MENOS 300 TOQUES, POR AÍ (XII)

Muda

Ninguém soube, mesmo depois do acontecido, o tanto que Isaura previra aquela morte, a do amor de uma vida. Mas as acácias da ruazinha de pedra definharam como as gargalhadas vespertinas. "Não se deixa ir assim, um amor de uma vida, sem um laivo que seja da alma da gente indo junto", ela disse, e só.



Sexta-feira, Outubro 28, 2005
NA PÚBLICA E NA PRIVADA

Num clamoroso e flagrante ato falho, Sua Incelença declarou ontem, dia dos seus anos, que "otimismo a gente deixa no banheiro e dá logo descarga". A assessoria depois trocou, é claro, o otimismo por pessimismo, mas não tem descarga que limpe uma declaração desse tipo.



PROVA DE FOGO

Alá, hein São Judas Tadeu? Causa impossível mesmo, pra valer, é a desse ano.



HAPPY BIRTHDAY, MR. PRESIDENT

Cada um tem a Marilyn Monroe que merece.



Quinta-feira, Outubro 27, 2005
PÕE MEIA DÚZIA DE BRAHMA PRA GELAR

Tô voltando. Na verdade, nem fui. Fiquei por aí, nesse mês e pouco, lendo, preguiçoso, os textos de amigos. Aproveitei pra arrumar idéias e me familiarizar com os cabelos brancos, este foi o ano deles. Tentei escrever, juro, sobre a conjuntura política atual, sobre o referendo, sobre o Clube de Regatas do Flamengo. Não deu, na hora agá algo me impedia. Muita bobagem se diz, muita bobagem se escreve sobre temas tão importantes. Não ia ser mais um, antes o silêncio.

Mas os amigos - como é bom ter amigos! - estão aí cobrando, insistindo. É bom a gente ter quem não desista da gente, muito bom. E aí, de uma hora pra outra, deu uma vontade irresistível de escrever bobagens de novo, olha eu aqui. Quem mandou cutucar quem estava quieto?



Sexta-feira, Setembro 23, 2005
SÉRIE MAIS OU MENOS 300 TOQUES, POR AÍ (XI)

Humaitá

O apartamentinho é todo o cheiro fresco de pós-banho permanente, marca sua. Caetano e Roberto duelam por minutos raros de um dia cinza, mas os dois pingos de mel de laranjeira querem é capturar mistérios eternos da vida. Do lado de lá da janela sempre aberta pro mundo, espera, paciente, o que já é seu.



Segunda-feira, Setembro 19, 2005
POCKET SHOW

(Porque a vida, bem disse a nossa diretora-produtora-fotógrafa, é feita desses momentos)


Dois na bossa


Elis & Tom. Unplugged, dá pra notar?


See you later, alligator


E a moçada vai pedir bis


Estrela da vida inteira



Quarta-feira, Setembro 14, 2005
MACUNAÍMICA

Ai, que preguiiiiiiiiiiiça...



MOMENTO FASHION-FÚTIL II (RECORDAR É REVIVER)

Estou me repetindo, já disse isso em março do ano passado, acerca do traje de fuga (frustrada) do Sérgio Naya, mas diante do figurino estarrecedor do Maluf ao entregar-se à Polícia Federal, não há como evitar: até pra ser ladrão tem que ter savoir-faire!



Segunda-feira, Setembro 12, 2005
CERTEZA

Sei lá se existe vida noutro mundo
Ou faz-se muito amor no Uzbequistão
Se é verde ou furta-cor a cotovia
E existe bossa nova em catalão?

Não sei quem foi o pai da maçaneta
Tampouco o inventor da goiabada
Nem se ao findar da tarde em Cochabamba
Os pássaros celebram a revoada

Se é frio ou quente ou bravo o mar em Bali
Se é duro dirigir a Romi-Isetta
Se há luz no Mausoléu de Halicarnasso
Se é Rilke ou Freud em sua camiseta

Ou se a enciclopédia tem verbetes
Bastantes que destrinchem o universo
E a Bíblia, o Alcorão, Sutras, Torá
Definem mesmo Deus com tanto verso

Mas sei, e isso eu posso até jurar
Que os olhos que me olham com essa cor
De linha que divide o céu do mar
São minas que transbordam teu amor

E os meus olhos castanhos, sem supor
Que acendem com o fervor do teu mirar
Te encaram na esperança que o calor
Que sentem possa me incendiar.



Quinta-feira, Setembro 01, 2005
SÉRIE MAIS OU MENOS 300 TOQUES, POR AÍ (X)

Vidigal


Ancas de subir-descer morro todo dia, sacolas do mercado a contrapeso, moleques pelas mãos. Ancas rijas, que bolem soltas dentro do vestido florido justo e aceleram corações desavisados: a morena é cativa e é só seu carcereiro, ainda que preso, quem tem a chave de sua alma, a que abre sorrisos e pernas, a que abre seu peito ora dormente. Mas um dia ele volta.



Quarta-feira, Agosto 31, 2005
PORTA-VOZ

Nunca senti tanto orgulho de um voto, isto é, nunca me senti tão bem representado por alguém que eu tenha ajudado a eleger com meu voto, quanto ontem, na sessão da Câmara em que o deputado federal Fernando Gabeira (PV/RJ) disse, na cara de Coroné Severino, o que eu tinha vontade de dizer: que a presença dele na presidência daquela casa é um desastre para o Brasil.

É por isso que não se pode deixar de votar nunca, uma hora a gente acerta.



Segunda-feira, Agosto 29, 2005
NOVA SÉRIE: OS GRANDES MISTÉRIOS DA HUMANIDADE

Por quê "já" quer dizer "imediatamente" e "já, já" significa "daqui a pouco", se o vocábulo é repetido como que a enfatizá-lo?



BLOG DO MANO

Meu irmão Celo rendeu-se finalmente ao universo blogueiro e inaugura hoje o VENDO VERSOS, onde passa a publicar seus já mundialmente famosos poemas, depois do sucesso editorial retumbante de Mas Larga Essa Mala no Chão! (que, a despeito do que o suspeitíssimo título parece indicar, foi lançado antes, muito antes do atual momento delúbio-valérico por que passa a nação; pensando bem, talvez este fosse até um bom momento para relançá-lo, márquetim grátis e diário!).

Vão lá conferir, é coisa muito fina!



Quarta-feira, Agosto 24, 2005
MORO NA ROÇA, IAIÁ

A pessoa faz o seu jogging matinal na praia e, na volta, resolve atalhar pela, digamos, comunidade carente encravada entre a orla e o bairro. Ocupado, esclareça-se, basicamente por migrantes nordestinos atraídos pela farta oferta de trabalho na construção civil, mais descendentes e agregados, o lugar oferece toda sorte de estabelecimentos a comercializar os tradicionais produtos típicos da querida região brasileira, assim como os onipresentes chineses de R$ 1,99, artigos para festas infantis, aves, bebidas e o mais que se pensar. Vem, então, a pessoa pela calçada, conferindo as mais variadas biroscas entre vasos de espada-de-são-jorge e engradados de cerveja, quando ouve, detrás de si, um inusitado pocotó-pocotó em ritmo acelerado e crescente volume. A natural virada de pescoço é seguida do compreensível pavor diante do quadro: em desabalada carreira, avança em sua direção um cavalo, sabe-se lá surgido de onde, que, como se não fosse bastante, ainda vem arrastando pelo caminho uma bicicleta, ou o que sobrou de uma, atada ao pobre por uma corda.

O tempo é o da fração de segundo, e a ocasião parece mais do que ideal: desvia do trajeto do assustado corcel atirando-se a um terreno baldio que se lhe apresenta caído dos céus, tendo a queda amortecida pelos inúmeros pés de mamona (planta já de mil utilidades, com isso ganhou mais uma). Não conta é com a possibilidade do desesperado animal seguir-lhe a idéia, como que a clamar-lhe: "desamarra esta merda de mim, dona!", jogando-se também para o já então diminuto pedaço de mato. A besta, no entanto, é segura no último instante por bravo popular que vinha passando, acudido de pronto por outros quatro prestativos rapazes. Desfeita a união forçada com o inoportuno engenho humano, o cavalinho volta ao seu pacato estado de espírito habitual, permitindo assim que a pessoa se acalme e retome o caminho em direção à casa.

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- Bom dia! E aí, foi correr na praia?

- Quase fui atropelada, adivinha pelo quê.





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