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Sexta-feira, Março 19, 2004
BANCA
Já está virando um hábito toda 6a. eu postar uma musiquinha, desejando aos amigos leitores um bom fim de semana. A de hoje, que eu gosto muito na voz da Isaurinha Garcia, é do Billy Blanco, um dos compositores-arquitetos da MB: A Banca do Distinto (Billy Blanco) Não fala com pobre, não dá mão a preto Não carrega embrulho Pra quê tanta pose, doutor? Pra quê esse orgulho? A bruxa, que é cega, esbarra na gente E a vida estanca O enfarte lhe pega, doutor E acaba essa banca A vaidade é assim, põe o bobo no alto E retira a escada Mas fica por perto esperando sentada Mais cedo ou mais tarde ele acaba no chão Mais alto o coqueiro, maior é o tombo do côco afinal Todo mundo é igual, quando a vida termina Com terra em cima e na horizontal Quinta-feira, Março 18, 2004
MOMENTO FASHION-FÚTIL
Tá, o cara é um tremendo dum filho-da-puta, bandidão-assassino da pior espécie, não pagou até hoje pelo que fez, nem em moeda nem em cadeia, e é possível até que nunca venha a pagar. Mas quem foi o sacana que vendeu aquele terno PRATA (!!!) pro Sergio Naya? Pior, quem foi o infeliz que disse a ele que aquele era o traje mais adequado pra tentar uma fuga discreta do país? Fala sério, até no crime tem que ter savoir-faire! DIVINA MÃE
Uma vez que a gente enverede por esse caminho, fica tentador não continuar. Na correspondência do meu sincretismo, podemos ligar muitas outras figuras da Música Brasileira com as da Igreja. Como só falei dos homens e a figura da mulher é fundamental tanto na música como na religião, tenho que registrar (mesmo arriscado de excomunhão ou, pior, censura) que Nossa Senhora da MB é Elizeth Cardoso, com o perdão de todas as outras divas tão importantes, tão belas. Não digo isso sozinho, o próprio Filho-Chico, na contracapa do último disco de Elizeth em vida (Todo o Sentimento, com Raphael Rabello), escreveu que ela tem a "voz de mãe", e é a mãe de todas as cantoras do Brasil. De certa forma foi a mãe de todos porque vinha de antes, era uma estrela consagrada e aceitou a missão que Tom-Pai lhe deu no "Chega de Saudade": gravar com o iniciante João-Diabo(!) suas parcerias com Vinicius (chega, dele falo depois). Ali nasceria tudo, a batida diferente, a temática da bossa-nova, a revolução que seria depois assumida por todos que se seguiram. Não por acaso, ela é a Divina. TRÊS MAIS UM
Fiquei devendo outro dia uma explicação para a história da Trindade Musical. Uma outra vez lá atrás já havia declarado que a Música Brasileira era minha religião, embora não me considere um praticante ortodoxo, tampouco radical. Pois bem, a Trindade, pra quem não está ligando o nome às pessoas, é aquela figura que a Igreja de Roma usa pra explicar seu conceito de Deus: Pai, Filho, Espírito Santo. Obviamente, a figura do Pai, o maiorzão de todos, o de antes de tudo, onipotente e onisciente reservei desde sempre ao mestre dos mestres, o maior músico dessas plagas, S.S. o Maestro Antonio Carlos Jobim. Por tudo, pela definição do que é hoje a música brasileira, pela sua consolidação no universo, o Criador. O Filho também me foi fácil, me parece natural, ficou com Chico Buarque de Hollanda, não só pelo próprio caminho de sua obra, seguidora da de Tom (Chico disse, no enterro do Pai: "Tudo que eu fiz foi pra ele."), mas também por sua própria figura um tanto rebelde, questionadora dos poderosos, porta-voz dos desvalidos e mulheres (prostitutas ou não). Fora a presença do próprio Jesus original em suas canções (Cálice, Gesúbambino). O Espírito Santo é um pouco mais complexo de definir. Figura mutável-mutante, ora fogo, ora água, ora pomba, não é masculino nem feminino, emana diretamente da força do Pai mas tem seu caminho independente, é festa, êxtase ou introspecção. Não tinha pra ninguém, tasquei um Caetano Veloso, o experimentador, o camaleão. Ficamos assim com Tom, Chico e Caetano. E João? Poxa, precisava estar presente, João Gilberto é figura central da moderna música brasileira, rompedor de paradigmas. Bom, as três vagas ocupadas, a conceituação muito clara na minha cabeça, parti à cata e nada melhor me ocorreu: João Gilberto é o Diabo, o Anjo Caído, essa figura polêmica, muitas vezes incompreendida, o provocador da ira dos puristas. João trouxe ao pobre mortal a possibilidade de cantar baixinho sem precisar ser um barítono, um "iniciado". Ensinou que o samba podia ter uma batida diferente, tão bela quanto a original. Seus desafinos são dissonâncias, outro papo. É mestre, não quer briga, mas desmanchou tudo e fez brotar outra realidade, de certa forma humanizando a MB. Ele está ali, sempre a provocar a gente, mas segue impávido em seu caminho, a despeito da grita dos caretas. Quarta-feira, Março 17, 2004
A ALMA ENCANTADORA DAS RUAS
Aqui em São Cristóvão, onde trabalho, há um grande número de estabelecimentos nordestinos, independentes da famosa feira que vai de 5a. a Domingo. Nesses lugares existem umas figuras fantásticas, sempre boas de observar. Um simples pulinho no banco pode nos render pérolas deliciosas, como essa recolhida agorinha, o sujeito no balcão do botequim dizendo à moça-freguesa, num volume bacana, perfeitamente audível pra quem estava, como eu, do outro lado da rua: "o negócio é metê, minha fia, ME-TÊ! (pausa) A cara no mundo..." Terça-feira, Março 16, 2004
OTHELLO INCURÁVEL
Dor de Cotovelo (Caetano Veloso) O ciúme dói nos cotovelos Na raiz dos cabelos Gela a sola dos pés Faz os músculos ficarem moles E o estômago vão E sem fome Dói da flor da pele ao pó do osso Rói do cóccix até o pescoço Acende uma luz branca em seu umbigo Você ama o inimigo E se torna inimigo do amor O ciúme dói do leito à margem Dói pra fora da paisagem Arde ao sol do fim do dia Corre pelas veias na ramagem Atravessa a voz e a melodia Segunda-feira, Março 15, 2004
POESIA ATUAL
Ontem, 14 de Março, foi dia da Poesia. A data foi instituída para homenagear Castro Alves, nascido nesse dia (em 1847) e durante muito tempo considerado o maior poeta brasileiro. Olhando hoje, pode cheirar a escola, aula de literatura, vestibular. Mas quanta atualidade nesses versos, escritos há mais de século: "Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade Tanto horror perante os céus?! Ó mar, por que não apagas Co'a esponja de tuas vagas De teu manto este borrão?... Astros! noites! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!" "Quem são estes desgraçados Que não encontram em vós Mais que o rir calmo da turba Que excita a fúria do algoz? Quem são? Se a estrela se cala, Se a vaga à pressa resvala Como um cúmplice fugaz, Perante a noite confusa... Dize-o tu, severa Musa, Musa libérrima, audaz!..." "Existe um povo que a bandeira empresta P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... E deixa-a transformar-se nessa festa Em manto impuro de bacante fria!... Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, Que impudente na gávea tripudia? Silêncio. Musa... chora, e chora tanto Que o pavilhão se lave no teu pranto!... Auriverde pendão de minha terra, Que a brisa do Brasil beija e balança, Estandarte que a luz do sol encerra E as promessas divinas da esperança... Tu que, da liberdade após a guerra, Foste hasteado dos heróis na lança Antes te houvessem roto na batalha, Que servires a um povo de mortalha!..." (trechos de "O Navio Negreiro", 1869) |
Alabê na roda | ||