Navegar Impreciso



Quarta-feira, Agosto 24, 2005
MORO NA ROÇA, IAIÁ

A pessoa faz o seu jogging matinal na praia e, na volta, resolve atalhar pela, digamos, comunidade carente encravada entre a orla e o bairro. Ocupado, esclareça-se, basicamente por migrantes nordestinos atraídos pela farta oferta de trabalho na construção civil, mais descendentes e agregados, o lugar oferece toda sorte de estabelecimentos a comercializar os tradicionais produtos típicos da querida região brasileira, assim como os onipresentes chineses de R$ 1,99, artigos para festas infantis, aves, bebidas e o mais que se pensar. Vem, então, a pessoa pela calçada, conferindo as mais variadas biroscas entre vasos de espada-de-são-jorge e engradados de cerveja, quando ouve, detrás de si, um inusitado pocotó-pocotó em ritmo acelerado e crescente volume. A natural virada de pescoço é seguida do compreensível pavor diante do quadro: em desabalada carreira, avança em sua direção um cavalo, sabe-se lá surgido de onde, que, como se não fosse bastante, ainda vem arrastando pelo caminho uma bicicleta, ou o que sobrou de uma, atada ao pobre por uma corda.

O tempo é o da fração de segundo, e a ocasião parece mais do que ideal: desvia do trajeto do assustado corcel atirando-se a um terreno baldio que se lhe apresenta caído dos céus, tendo a queda amortecida pelos inúmeros pés de mamona (planta já de mil utilidades, com isso ganhou mais uma). Não conta é com a possibilidade do desesperado animal seguir-lhe a idéia, como que a clamar-lhe: "desamarra esta merda de mim, dona!", jogando-se também para o já então diminuto pedaço de mato. A besta, no entanto, é segura no último instante por bravo popular que vinha passando, acudido de pronto por outros quatro prestativos rapazes. Desfeita a união forçada com o inoportuno engenho humano, o cavalinho volta ao seu pacato estado de espírito habitual, permitindo assim que a pessoa se acalme e retome o caminho em direção à casa.

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- Bom dia! E aí, foi correr na praia?

- Quase fui atropelada, adivinha pelo quê.





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