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Segunda-feira, Novembro 07, 2005
SOUTH AMERICAN WAY
O restaurante é tradicional, serve peixe e aparentados numa orgia sem fim, preço fixo. Caro. Bastante freqüentado por turistas estrangeiros, pelo exotismo do lugar, um perto-longe da zona sul (você tem de pegar uma estrada, onde passa por vendedores de caranguejo, roletes de cana e sapotí, entre outros, o que dá a sensação de estar viajando pra fora da cidade). Igualmente apreciado por nativos, principalmente os de carteiras anabolizadas, mas até por reles mortais como eu, que têm o cérebro no lugar do estômago (ou vice-versa, o que, pensando bem, explicaria o vício inato por camarões) que trocam os últimos centavos pelos prazeres de uma boa mesa. Estou de costas, mas percebo que o grupo é formado por membros de três gerações de uma mesma família, capitaneado pela mãe, uma dona que fala sem parar e com aquele carioquês molenga de certa classe, que faz a pessoa aparentar embriaguez permanente. A avó é senhora mais simples, não tendo, talvez, acompanhado a evolução social da filha. O filho, moleque de uns dez, onze anos, é dessas crianças irritantes que se acham mais inteligentes que todos, impondo inúmeros xeques-mates em voz alta aos demais comensais. Conhece tudo, já deve ter estado nuns vinte países. Rico e tolo, alienado. Falam de tudo, quase sempre frivolidades. As mulheres, fico sabendo, têm que voltar ao médico da dieta urgentemente, o remédio não está funcionando (se for inbidor de apetite, penso eu, não está mesmo). Ainda descubro que o hotel da última viagem a Cancún possui uma varanda similar ao do nosso restaurante, só que maior e sem esse telhado de palha, né?, onde os pássaros também entram atrás de comida. Não são pardais, claro. A dona bêbada chama a garçonete e pergunta em voz alta pela proprietária do estabelecimento, recentemente acometida por derrame, fazendo questão de aparentar intimidade, "ah, conheço isso aqui desde o tempo do prato feito". A derradeira prova: eles também pedem quentinhas pra viagem, não estou só. A filha não aceita a mãe simplória preferir mandar embrulhar o peixe, mais barato que o resto. Não há dúvidas, o grupo é uma amostra (bastante significativa, uma vez que representa bem as três fases de evolução da espécie) daquilo que se convencionou chamar "emergentes": muita grana e pouca cultura. Bastante afetação. Vem a sobremesa, composta de uma bandeja com uma infinidade de potinhos contendo os mais variados doces da terra, das compotas à baba-de-moça. "Isso é brownie?", pergunta o garoto. Silêncio, a garçonete não tem resposta. "É pé-de-moleque, João Marcelo. Tipo um brownie, prova que você vai gostar". |
Alabê na roda | ||