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Sexta-feira, Novembro 25, 2005
O BRASIL É UM SERESTEIRO

Só ontem conseguimos ver na Laura Alvim "A Canção Brasileira", que eu já namorava há tempos, antes mesmo da estréia no Espaço Cultural dos Correios. Quando soube que Paulo Betti, com sua Casa da Gávea, estava produzindo esse espetáculo, marquei logo nos "imperdíveis". Imperdível porque é uma opereta - gênero raríssimo nos dias de hoje - com libreto de Luis Iglesias (o rei do teatro de revista) e Miguel Santos, com partitura do maestro Henrique Vogeler, originariamente encenada no Teatro Recreio, então o grande palco dos musicais cariocas. Imperdível porque resgata as origens da nossa música; imperdível porque é um belo texto, recheado de belas músicas.

A idéia de remontar essa raridade era de Luís Antônio Martinez Corrêa, diretor dos sucessos "Theatro Musical Brazileiro I" e "II", que vinha trabalhando no projeto quando foi assassinado, em 1987. Sua irmã Maria Helena, decidida a tocar a empreitada adiante, esbarrou num primeiro empecilho: embora se conhecesse o libreto, não havia registro da música. Como teatro é mesmo feito de magia, ela um dia recebeu a visita do Sr. French Gomes da Costa, antigo freqüentador do Recreio que, de tanto assistir à montagem original em 1933, acabou conseguindo uma cópia da partitura, relíquia que conservou por décadas, como que por missão. Maria Helena fez adaptações no texto e convidou Betti para dirigir a peça, que conta com um jovem mas muito talentoso elenco de atores-cantores-músicos, cenários e figurinos eficientes e lindas coreografias.

Mas o grande trunfo é mesmo o argumento, um achado do cracaço Iglesias (falecido marido da atriz Eva Todor, vo-cê...sabia?): a Canção Brasileira, menina rica recém-nascida do casamento feliz do Sr. Lundu com a Sra. Modinha, recebe a visita dos amigos chiques do casal, como a Valsa vienense, o Couplet francês e o Fado português. Mas alguns velhos amigos do pai da menina, a Flauta, o Violão e o Cavaquinho, descem do morro para também homenageá-la, e acabam tendo a idéia, "pelo bem da música brasileira", de raptar a Canção Brasileira dos salões, levando-a ao morro para crescer junto a um moleque também recém-nascido, o Samba.

Os anos passam e os dois acabam mesmo enamorados, e estão prestes a marcar casamento quando a mãe da moça, agora já viúva do Lundu, descobre com a ajuda de um amigo afetado, o Tango, a filha raptada vivendo na pobreza. Desiludida com a mentira de tanto tempo, a Canção acaba por ceder aos apelos da mãe e desce à cidade, deixando o noivo desconsolado. A Canção sucumbe aos apelos da vaidade e aceita a corte do Tango, para gosto da Modinha, enquanto o Samba se diverte com a Senhorita Charleston, menina americana doidinha que, depois descobrimos, é ex-caso do porteño, dos tempos dos cabarés de Paris.

É claro que a coisa tem um final feliz: no dia do casamento da amada o Samba chega engalanado, com os velhos amigos do morro, cantando o tema da moça (que começa com a frase do título ali em cima). Ela, derretida, dá um "adiós muchacho" ao janota argentino, que sai batendo a poeira dos sapatos, à la Carlota Joaquina. Miss Charleston, encantada com o Moleque Tamborim, o arrasta pra fazer ponta na jazz band de seu pai, Mr. Fox, na América. E o Samba e a Canção terminam juntos e apaixonados, prometendo um futuro muito fértil. Para o bem da Música Brasileira.

Eu disse que era imperdível, corre que só vai até 11 de dezembro!

A CANÇÃO BRASILEIRA
Quintas e sextas às 21hs; Sábados e Domingos às 20hs.
Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim - Av. Vieira Souto 176, Ipanema
Tels. 2267.1647 / 2247.6946






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