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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006
FELIZ ANO NOVO
É a gente começar o ano na santa paz das Geraes e aí mesmo que o velho ritmo desanda, ainda no café-com-pão da eterna Maria Fumaça, a rasgar com seus apitos o silêncio de passarinhos e comadres. Ê leseira danada, perdição. Certo que isso é restinho do barato inebriante do pequi, gosto rosa de Guimarães. Ou é muita cachaça e feijão-de-tropeiro nas idéias, efeito devastador na ordenação racional de palavras. Aliás, escrever mó de quê, uai, se a gente pode prosear? Ou o ar puro demais das montanhas, ou a sabiá em frenéticos vaivéns aos três biquinhos ávidos, ou o desbunde do concerto barroco na Matriz seguido da Folia de Reis na praça, genialidades tão díspares e gêmeas assim, direto na veia. Ou o boquiabrir-me diante das maravilhas que mãos grossas, calejadas, produzem do lixo, um "fiat lux" ao vivo e em cores, muitas cores. O tatu que brota do galho de maçaranduba como o Moisés de Michelângelo brotou um dia do Carrara. Ou é a água, claro!, a água de São José, cuspida há trezentos anos das mesmas três gárgulas de pedra, água de sinhazinhas e escravas lavadeiras, de tropeiros e inconfidentes, corcéis e mulas. Ou o vagar com que se come o pastel de fubá, como quem adivinha a última refeição na terra, ou a primeira no Céu, vai-se saber. Os santos e santas morenas, querubins caboclos, cristos brasílicos. O ouro fácil, ostensivo, dos brancos, o ouro suado e escondido em carapinhas e bocas negras, valorado ainda mais pela raridade do impossível. Ou é mesmo a paz de sorrisos e boas-tardes, de meneios e acenos tão desconhecidos quanto acolhedores. Vontade de fazer parte daquilo tudo, daquele sistema redondo, perfeito. É a gente ir ali distraído e voltar assim, com muito por (re)pensar, tudo por fazer. (a foto, que é minha, foi clicada por volta da hora do almoço de um dia mormacento no Distrito de Vitoriano Veloso, que é conhecido mesmo, universalmente, pelo muitíssimo mais apropriado nome de Bichinho.) |
Alabê na roda | ||