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Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
EVOÉ, MAOMÉ!

Diante dessa guerra surreal entre vikings e mouros, só o que há para dizer é: viva o Brasil! Ufanismos lá longe, e mesmo com todas as mazelas e mutretas que cada um de nós está valério de saber, esse tipo de coisa maluca nunca aconteceria por estas bandas luso-tupiniquins. Não só pelo famoso deixa-estar-pra-ver-como-é-que-fica com que empurramos tudo com a barriga, mas porque esta é mesmo a terra da acolhida, da convivência pacífica até mesmo entre povos "inimigos".

Não é à toa que quando a gente brinca com religião, quase tudo acaba em samba - ou em marcha. Pra ficar só nas mais famosas, ambas cutucando o vespeiro do Islã: "Allah-lá-ô" (Haroldo Lobo e Nássara, 1940) e "Cabeleira do Zezé" (João Roberto Kelly e Roberto Faissal, 1963). A "Cabeleira" é aquela mesma, famosa por cogitar ser o cabeludo Zezé um possível seguidor de Maomé ou, pior, um transviado. "Allah-lá-ô" (ou "Alá-lá-ô", ou "Alalaô") já no título cita o nome do próprio Deus em vão! E isso há 65 anos! Serão os nossos muçulmanos mais relaxados que os muçulmanos dos outros, ou cientes de que não vale a pena esquentar a cabeça com galhofa de brasileiro, ainda mais em se tratando de assunto grave, de importância nacional, como uma marchinha carnavalesca?

O fato é que "Allah-lá-ô" teve outros motivos, que não religiosos, para causar polêmica. Conta a lenda que o compositor Haroldo Lobo teria composto a marcha "Caravana" para o cordão Bloco da Bicharada desfilar no bairro carioca da Gávea, no Carnaval de 1940:

"Chegou, chegou a nossa caravana / Viemos do deserto / Sem pão e sem banana pra comer / O sol estava de amargar / Queimava a nossa cara / Fazia a gente suar."

Haroldo usava testar suas composições no bloco, do qual era patrono, para lançá-las no ano seguinte. Meses depois, já pensando no repertório do próximo Carnaval, pediu a Antonio Gabriel Nássara (caricaturista, a história vive mesmo a repetir-se) que completasse a letra. Nássara, que era filho de imigrantes libaneses, gostou da idéia mas achou os versos muito ruins, então sugeriu uma segunda parte:

"Viemos do Egito / E muitas vezes nós tivemos que rezar / Allah, Allah, Allah, meu bom Allah / Mande água pra Ioiô / Mande água pra Iaiá / Allah, meu bom Allah."

Segundo depoimento gravado de Nássara, quando Haroldo percebeu a força da palavra "Allah" repetida várias vezes, entusiasmou-se: "Mas que palavra você me arranjou, rapaz!". Na mesma hora, teria criado o refrão "Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô / Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô", o forte da letra. Graças à ajuda do maestro Pixinguinha, que priorizou o arranjo da composição (ainda, de quebra, a incrementando com uns enxertos seus), a gravação, com a voz de Carlos Galhardo, pôde ser feita a tempo de ser lançada no Carnaval de 1941, com estrepitoso sucesso.

Em 1980, num artigo na revista Manchete, David Nasser (outro filho de libaneses, vejam como são as coisas) declarou-se co-autor da letra de "Caravana", preterido por Haroldo Lobo. Mas reconheceu, afinal, que o sucesso da marchinha devia-se ao trabalho definitivo da dupla que a registrou. Não se pode saber se a versão de Nasser é a verdade, esperteza de marketing pessoal ou puro veneno: a despeito do grande compositor e jornalista que foi, sempre viveu lances controvertidos, como a perseguição covarde que fez a Carmen Miranda nas páginas de "O Cruzeiro". Prefiro ficar com a versão de Nássara.

Esperemos que os ânimos se esfriem e que os árabes não se lembrem de cismar com essa marchinha brasuca imortal. Até porque se a guerra for declarada em pleno Domingo de Carnaval, vai faltar confete pras batalhas. Mas isso já é outra música.

Allah-lá-ô (Haroldo Lobo e Nássara)

Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô (bis)

Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente e queimou a nossa cara

Allah-lá-ô, ô-ô-ô, ô-ô-ô
Mas que calor, ô-ô-ô, ô-ô-ô (bis)

Viemos do Egito
E muitas vezes nós tivemos que rezar
Allah, Allah, Allah, meu bom Allah!
Mande água pra Ioiô
Mande água pra Iaiá
Allah, meu bom Allah!





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