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Terça-feira, Julho 18, 2006
VAMOS COMBINAR

Tenho medo - medo não, pavor - desses neologismos de prateleira a que somos submetidos a torto e a direito. Sim, eu lanço mão da pré-cambriana "a torto e a direito", mas não por isso me assustam as novidades da língua. Quando a coisa brota naturalmente, de uma necessidade comum, das pessoas comuns, de definir algo inédito, tudo bem. É normal e sadio que se incluam palavras ao dicionário, línguas (as de falar, não as de lamber) são mesmo como organismos vivos, vibrantes, e admitem até influências estrangeiras, normal.

Mas, quando uma expressão de repente toma conta de todos os meios (a chamada mídia, vá lá), imposta por meia dúzia de publicitários sabichões e todo mundo sai repetindo maquinalmente pra fazer bonito, irrita. A mim me irrita. E quando chega essa época de eleições, então, a coisa potencializa; daqui a pouquinho vamos ter milhares de beócios candidatos a uma vida mansa cuspindo na TV e no rádio, dia e noite, asneiras decoradas como se tivessem descoberto a pólvora (olha outra pré-cambriana).

Já prevendo irritações sem fim, especialmente as causadas por certa expressão ainda recente mas já bem na moda, que ameaça pegar firme, proponho o lançamento de uma campanha urgente: BASTA DE INCLUSÃO DIGITAL! Vamos bolar um grande concurso nacional, debater nas universidades, promover votações em todos os cantos, mas bora mudar isso aí, não tá dando!

Ou, como diria Ancelmo Gois: na minha terra, inclusão digital é eufemismo pra dedada. Com todo o respeito.



Segunda-feira, Julho 17, 2006
SANHAÇOS

Humanos somos muito esquisitos mesmo; a gente inventa um monte de coisas pra complicar a vida, depois reclama que a vida é complicada. Certo, nenhuma novidade, mas é que nem falo só de aparato tecnológico, guerras, buracos na camada de ozônio. Falo mesmo das relações pessoais, aquelas que se dão no dia-a-dia entre dois exemplares dessa espécie complicada dotada de umbigos-reis.

Dos toques mais bacanas que o moço do Corcovado deixou - ou dizem que deixou, sei lá, mas está registrado em seu nome - meu preferido sempre foi "olhai as aves do céu, olhai os lírios do campo", e por aí vai. "Nada mais natural que a natureza", completaria minha avó, eu assinando embaixo. Tenho feito bem pouco na vida além de procurar olhar as aves do céu e os lírios do campo. Rezo para ter olhos de ver, ouvidos de ouvir.

Há um ninho de sanhaços aqui fora, na caixa de ar condicionado empoeirada desse prédio empoeirado, nesse bairro decadente e empoeirado. Poucas árvores ali embaixo, algumas até bastante habitáveis, ao menos pro meu gosto. Mas eles cismaram de fazer ninho aqui, seja porque as árvores habitáveis já estejam bastante habitadas, seja porque prefiram um pouco mais de altura e sol. Estão aqui do lado, preparando sanhaços pro mundo, pais orgulhosos e atarefadíssimos de três filhotes famintos e esganiçados. Vez em quando cantam, não sei se por júbilo ou ensinamento aos pequenos, sanhaços não são minha especialidade. Vão e voltam com comida, enfiam goelas dos filhos abaixo, cantam. Simples assim. Daqui a pouco serão mais três sanhaços voando por aí, prosseguindo a programação. Os pais já terão feito outros ninhos e outros filhotes (com outros parceiros, talvez; preciso lembrar de pesquisar sanhaços). Sem roupa, psicanálise, televisão, supermercados, taxas de juros, eleições, gordura localizada, discussão de relacionamento, sites de relacionamento, blogs. Sem futebol! Sem noção da maioria das coisas, é verdade, mas não mais do que muitos de nós.

Faz sol e há sanhaços pra se ver. A Lua tem estado esses dias mais próxima à Terra (os que complicam chamam de "perigeo"), você viu? Ali embaixo passam as pessoas empoeiradas; ninguém olha o Sol, ninguém olha os pássaros do céu. Passam com pressa, com tosse, com raiva, de óculos e espíritos escuros, enquanto la nave va, azul como sempre, sabe-se lá pra onde. Custa nada aproveitar a viagem.





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