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Quinta-feira, Agosto 10, 2006
EU, DESPORTISTA

Não sei se já contei aqui que meu forte nunca foi esporte (pois é, sou o próprio Tarzan, o filho do alfaiate), apesar de ter enganado meus pais durante um tempo com uma medalhinha aqui, outra ali, em natação e judô. Mas esportes coletivos não, definitivamente, não são pra mim. No futebol, esporte que, se você nasceu no Brasil e não pratica (mesmo que mediocremente) é considerado um E.T., sempre fui uma completa negação.

Na rua de certa época, no subúrbio carioca em que morava, só havia garotos (não contando a irmã do Deco, mas a irmã do Deco não dava mesmo pra contar como garota, deixa pra lá) e o futebol no cimento era esporte nacional - havaianas como balizas, quantos houvessem divididos em dois grupos. Muitas vezes fui convocado para completar número, enquanto os colegas mais distraídos não tinham ainda se dado conta de minha flagrante inaptidão. Depois não, preferiam mesmo jogar com um a menos, melhor não arriscar. Admirador incondicional do jogo bonito, o chamado futebol-arte, não poderia ter insistido na prática obtusa de jogadas bisonhas; desde cedo passei - no sentido figurado, claro - a bola, joguei a toalha. Enquanto meu irmão e os outros moleques esfolavam dedões e joelhos no cimento, eu sentava na sombra com um bom livro, ou uma revistinha de quadrinhos, e, no máximo, arriscava-me num palpite sobre uma ou outra jogada mais duvidosa. Uma espécie de comentarista, digamos.

Mas aí meu pai foi transferido de estado, e lá fomos nós morar em Cascavel, oeste do Paraná, cidade então recém-colonizada por gaúchos. Logo descobrimos, meu irmão e eu, a variante local do rude esporte bretão. No caso, a variante era ainda mais rude. O pátio da escola era de terra batida - vermelha, a "terra roxa" paranaense - coberta por aquelas pedrinhas bem miudinhas. No recreio, os cascavelenses arranjavam algo que se assemelhava a uma bola mastigada por, sei lá, um tigre-de-dentes-de-sabre, e praticavam algo inominado até então, mas que logo passamos a chamar entre nós, forasteiros, de "arrúpia".

O arrúpia, a princípio, era o jogo mais simples e sem graça de todos, pela ausência mais absoluta de regras que já se viu. Uns duzentos e cinqüenta piás de dez anos corriam em manada única envolta em poeira vermelha atrás da "bola", e ao que conseguisse chegar na semi-redonda cabia a honra de dar-lhe um bico pro alto, varejando a mesma à distância mais longínqua possível, ao mesmo tempo em que berrava, a plenos pulmões: "ARRRRRRRRRRÚÚÚÚÚÚÚPIAAAAAAAA!!!", provocando, imediatamente, nova jogada, num vai-e-vem sem fim (Nota: teorias diversas foram levantadas nesses vinte e poucos anos de pesquisas lexicográficas acerca do tema, sendo mais aceita, até o momento, a de que "arrúpia" derivaria de "arrepia", após várias transposições que a língua de Camões e Machado sofreu, literalmente, até o dialeto gaúcho-paranaense ocidental). Não havia gols nem pontos; o objetivo único era fazer todo mundo correr ensandecidamente de um lado pro outro - portanto, quanto mais longe fosse a bola, melhor. A modalidade era praticada em tempo único de meia hora, tempo total do recreio. Os duzentos e cinqüenta (ou cento e vinte, ou quatorze, isso não tinha a menor importância) terminavam a peleja suadíssimos, de bochechas coradas, uniformes em frangalhos e tingidos de escarlate, tênis imprestáveis. Mas felizes, absurdamente felizes, prontos para outra ultracarga de calorias.

Dada a simplicidade do jogo e a desnecessidade total de habilidade, até mesmo eu me aventurei algumas vezes no meio da massa encardida. Claro, em nenhuma delas cheguei a bradar sequer um arrúpia, mas só o fato de estar ali, mais um na multidão enfurecida, me bastava. Aquilo é pra mim, até hoje, o esporte mais democrático que pode haver: nada de garotinhos metidos a craque escolhendo times com aquela empáfia sem tamanho, deixando gordos, cdf's e quatro-olhos para o final. Nada de juízes, treinadores, platéia, equipamentos. Nada de uniformes, regras nem fair-play. Nem mesmo competição; o arrúpia era (é?) o futebol em seu estágio mais avançado, a volta às origens: uma horda de bárbaros chutando caveiras adversárias indiscriminadamente. Só a pura diversão camarada, gastar energia e rir da cara um do outro.





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